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Archive for janeiro \28\UTC 2011


Deve-se guardar no mundo a fé

 

A fé! A verdadeira fé! Porque, incapaz de passar sem ela, não a tendo verdadeira, o mundo a substitui pela fé frágil e falsa, tristemente magnífica ou vergonhosamente monstruosa, com que encanta sua miséria ou enche o vazio de suas desoladas amarguras.
Que é a vida sem fé? que sentido passam a ter as coisas? que alcance as dores? que resultado o esforço? que causa merece nos prendamos a ela? que ideal impõe nos sacrifiquemos por ela?
Sem fé, só resta ao mundo inclinar sua pesada cabeça para o solo, túmulo de todas as coisas.
Guardar a fé é guardar a alma, e, se não há alma, que é então que haverá? A carne viva e a poeira morta. Com isso, que é que se pode fazer da vida? Bem o sabemos. Sabemo-lo demais. Como é vil e triste!
O país imenso, vossas pequenas paróquias, vossas humildes casas, vossas famílias, vossas ternuras, vossos corações, tudo tem necessidade essencial de fé.
Está aí? que fique! Vai-se embora? que volte! Partiu há muito: para onde? trazei-a de novo.
Guardando a fé no mundo, salvais o próprio mundo. E, mesmo que ele desconheça o serviço prestado, isso não é razão para que não lho prestemos, muito ao contrário. Mesmo que, em troca do benefício prestado, vos repila, vos esmague, vos martirize, pouco importa. Guardastes, porque na verdade nada tem mais duração que aquilo por que se sofre.
Praticamente, guardai para a igreja de pedra essas pessoas que vêem sentar-se à sombra religiosa de seu mistério. Guardai para a Sagrada Mesa as almas que nela recebem o Deus vivo. Guardai para a missa os fiéis que a compreendem. Guardai para o catecismo as criancinhas que o aprendem; para a escola cristã os meninos que a frequentam; para o patronato os jovens que a ele se dedicam.
Guardai para o altar as mais belas flores de vossos jardins. Guardai para os cânticos sacros vossas mais quentes melodias, e se vossas vozes, nas tardes do domingo, estiverem fatigadas, seja isso em honra de Jesus Cristo e não por se haverem esganiçado em outros lugares.
A tudo isso se chama guardar a fé.
Deve-se guardar ou restituir ao mundo o pudor
Com Jesus Cristo veio ele ao mundo. Com ele iria embora, se Cristo também fosse.
Uma pequena infelicidade, pensarão alguns. Um grande benefício, dirão outros. E eu direi, de minha parte: “Infelicidade sem nome! Irreparável perda! Diadema caído da fronte real da humanidade“.
Pensei em tudo o que o mundo teve de aprender para que o pudor entrasse em sua alma e aureolasse misteriosamente seu semblante.
O pudor quer dizer que a humanidade tem o senso arguto do bem e do mal, a consciência clara de um decadência sempre ameaçadora, o comovido sonho de uma beleza moral sempre exposta. Significa o medo de manchar o que é virginal, e expor o que é frágil, de desperdiçar o que é tesouro oculto. Conhece o sentido de um beijo e o seu valor; o poder de um olhar e o seu perigo. Teme, espanta-se, tem medo; sente súbitos rubores, sustos, constrangimentos e timidez. E em tudo isso revela que o ser não foi manchado, que faz questão de preservar a divina imagem reconhecida nele. É uma fraqueza, e essa fraqueza é uma grande força. É um encanto tal que aqueles mesmos que o insultam não podem deixar de o reconhecer.
 
As patrícias de Roma não foram dotadas dessa  fraqueza nem desse encanto, que começou a irradiar discretamente nos lábios e nos olhos das virgens cristãs.
E agora? Agora… Tudo se encarniça contra ele. Como se manchasse, fingem purificar os semblantes juvenis  que tinge. As que ainda o possuem quase se envergonham dele e as que o não têm ridicularizam-no.
Acometidos de audácia, de imprudência, de leituras desenfreadas, de convivências fáceis, de intimidades; perturbadoras, os semblantes despiram-se da trêmula reserva. O pudor desaparece.
Dir-se-á: Que mal há nisso se a pureza fica?
Sim, sim, eu compreendo. Pudor não é pureza. E, no entanto, como poderão viver muito tempo uma sem a outra? Quando uma vida moça perde seu pudor e sua pureza, por onde anda? por onde andará daqui a pouco? qual das duas, aliás, é a primeira a desperdir-se? A flor que perdeu seu supremo o perfume e suas delicadas cores será ainda uma flor?
Guardai para o mundo o pudor, minhas jovens, mesmo que ele não compreenda; mesmo que ele não queira. É preciso. Não tenhais vergonha de ter vergonha; não tenhais medo de ter medo. Cobri com vossas mãos o ninho em que se agitam tantas esperanças ameaçadas. A sombra de vossas pálpebras, por detrás de vossos lábios deliciosamente fechados, protegei as augustas realidades do coração, contende os queridos segredos. Que seja velado o tabernáculo vivo, como é nos altares. Porque Deus está lá. Não O abandoneis.
Deve-se guardar para o mundo o verdadeiro amor.
Neste particular, o mundo vos despacha sem cerimônia, por achar que não tem lições a receber. Ama ardentemente e desesperadamente. Diz que ama; julga amar. Pensa ser o único a amar e que seus inimigos do amor precisamente aqueles que o encaram de um modo diferente de todos.

Mas o mundo realmente não está perdendo o amor? não está a pique de o desfigurar, de o desnaturar de o matar?

Se amar é gozar, então o mundo ama. Se amar é, acima de tudo, dar-se, tornar o amado feliz e belo, chegar na doação até ao sacrifício, o mundo não ama, absolutamente não ama.

E todo o problema consiste nisso.

O amor – prazer, egoísmo elegante ou brutal, não tem necessidade de ser guardado para o mundo. Pois o mundo o guarda demais. Esse amor mantém-se sozinho, no triunfo dos instintos desabridos, sobre as ruínas do ideal moral e do dever. Vive- ou morre- dos seus prazeres; esgota-se para o satisfazer. Multiplica-se terrivelmente. É o deus das vidas sem Deus. Para uma parte da humanidade, só ele existe.

E é precisamente isso o mais triste de tudo. Porque as vítimas aqui na terra são inúmeras e o drama acaba no nada das revoltas amargas ou do desespero.

Mas o outro amor, humilde e generoso, sorridente e bom, que dá e que se dá, fiel, profundo, ardente e calmo, o amor que faz com que se morra e com que não se mate, com que se encontre plenitude, e conduz os dois até Deus, esse amor está faltando ao mundo. É necessário devolver-lho.; Guardar-lho.

Guardá-lo em cada um dos vossos corações. O amor nada é fora daqueles que amam. E, se o amor-prazer, o amor-pecado reina, é porque há inúmeros seres que, praticando-o, o fazem viver.

Em cada um de vossos corações, jovens minhas.

Segundo vosso amor, amará parcialmente o mundo.

Que pensais dele? como o sonhais? Eis uma solene resposta, que empenha o essencial da vida.

Como amigas, como filhas, como noivas, que idéia do amor realizais vós?

E que idéia realizareis como esposas e como mães? A maior parte já tem a resposta escrita na carne do coração. Todas vós amais, de um ou de outro modo, mais ou menos. Com que amor? com que coração no amor?

Sois cristãs no amor? ou sois pagãs?

Certamente que não é livre a escolha. Menos ainda o será se se forem a considerar as conseqüências do futuro e se se pensar que para amanhã o nobre amor não tem esperança de viver, a menos que hoje o que bate em vossos peitos juvenis seja uma generosa e pura ternura em lugar de perturbação dos egoísmos que têm fome e das sensualidades que têm desejos.

Deve-se guardar o ideal

E que mais ainda deve ser guardado?

Um nobre ideal? Perfeitamente. Assim convém quando se é moço e, sendo-se moço, quando se alimenta esperança e sonho.

Causam-me medo, fazem-me penas as moças que não são jovens. Há-as com a idade que terão aos oitenta anos. Se foi uma provação prematura que as feriu, a maldade humana que as agrediu, comove sua maturidade precoce. E essa maturidade, feita de experiência e de dor, não as torna inaptas para a nobre missão. Muito ao contrário.

Mas as que aos vinte anos não são jovens porque se acham corrompidas, porque coisa alguma as faz vibrar, cujos sonhos, aos ventos que passam, não tremulam mais que uma velha bandeira molhada ou amarrada ao mastro, a que respeito terão essas direito? Que esperar delas? Ideal já não têm mais, ou então trata-se de um ideal imobilizado sob um saco de moedas, atolado na lama. Não são ricas de qualquer promessa; nada guardam de reserva para o futuro. Nada conservam que valha a pena ficar.

Pensais que o mundo não tem necessidade de que se mantenha em seu céu um ideal? Essas grandes idéias, pelas quais aqui no mundo se realiza tudo o que há de belo, não devem estar escritas nos céus do pensamento e ativas nas profundezas das consciências?

Esta idéia, por exemplo, de que a vida mais alta é a vida posta ao serviço de alguma nobre causa; essa outra de que o sacrifício está acima do prazer; e uma terceira, ainda, de que o menor bem feito a uma alma merece que nos privemos de tudo para o realizar; e ainda uma outra, de que dar Deus a um ser é dar-lhe tudo; e ainda, de que a vida é antes de mais nada uma tremenda responsabilidade diante de nós mesmos e dos demais, e de que só há um modo perfeito de não a estragar: santificá-la; e ainda, de que mais vale sofrer do que pecar, comer honestamente o pão seco do que deliciar-se desonestamente num belo jantar?

Todas essas ídéias, e outras mais, cujo conjunto constitui o grande dever e cujo desfile pelas alturas constitui o ideal cristão, todas essas idéias não as devemos nós guardar? E, para as guardar, tê-las? E tê-las minhas jovens, aos vinte anos, sob pena de nunca mais as ter?

Guardai o desejo das alturas, a necessidade profunda do ar puro, o amor das claridades íntimas.

Guardai vossos lábios intactos, vossos corações vivos e castos, vossas mãos prudentes e generosas.

Guardai a chama dos vossos olhos, mas abrigada como as mãos protegem a lâmpada, sob pálpebras vigilantes que sabem baixar-se.

Guardai vosso sorriso, que pode ser culposa sedução e talvez, também, uma bondade, um auxílio, uma divina caridade dada aos infelizes.

Guardai a facilidade, que tendes, de vos emocionardes, a tendência para  a admiração, a facilidade para o entusiasmo. Guardai-os, e, se se der que a vida os esfrie, não os esfrieis antes dela.

Guardai aquilo que ironicamente se chama “ilusões de jovens apóstolas”, que podem muito bem não passar de forma natural do otimismo cristão quando se tem apenas vinte anos.

Guardai vossa confiança nos resultados do esforço.
Guardai vossas amigas e que elas vos guardem.

E, acima de tudo, ao fundo de um grande amor inalteravelmente jovem, guardai a Cristo que, não tenhais dúvida, Vos guardarás também.

E agora ficais sabendo o que é preciso guardar.

(Jovens: Vocês e a vida – coleção moças, pelo Fr. M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post: Guardar com que disposições?)

Fonte: A Grande Guerra

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